O veículo por aplicativo e a urgência da comunicação para alertar o mundo

Sabe aquele dia no qual você chega ao começo da noite arrebentado física e intelectualmente, e aí aciona o aplicativo para ser conduzido ao aconchego e ao conforto do seu lar, já imaginando um banho e as pernas para cima?
Aconteceu comigo esta semana. O jovem motorista deu seta, encostou, entrei. Tudo o que eu queria, naquele momento, era poder ir em paz e em segurança. Infelizmente, não tive essa felicidade.
O condutor do veículo era um ser falante, entusiasmado, eloquente. Aos poucos, para minha desesperança, fui percebendo que ele tinha saído das trevas e se alimentava de restos de ideias desordenadas e desaproveitadas. Ele estava exultante com o fortalecimento de temáticas de direita na Europa e nos EUA, assim como com as posições marcadas e as recentes bravatas disparadas como sendo dos “donos do mundo”. Ele estava feliz, igualmente, com a brutalidade do formato da deportação dos brasileiros ilegais presos nos EUA, adorou vê-los acorrentados no transporte. E não parou por aí.
Defendeu a ideia de uma deportação forçada, interna, também aqui no Brasil. Como exemplo, devolveria todos os baianos que vivem em São Paulo para a Bahia. Eu estava exausto, encerrando um duro dia de trabalho, e não merecia ouvir tanta estupidez de um rapaz de 34 anos, que cruzou meu caminho dentro de um carro de aplicativo. Eu me lembrei da frase usada pelo filósofo Leandro Karnal, “Não toque tambor para maluco dançar”, mas mesmo assim me senti no dever profissional de contra-argumentar, mostrar para ele quão surreal era aquilo tudo, mas ele não desistia, estava convencido. Disse ter um grupo de 10 mil pessoas nas redes que pensam como ele, que querem alterar a Constituição para fazer essa “deportação”.
Eles têm muitos ídolos por aí, que fazem tudo para aparecer e, pelo visto, são amplificados pelas redes sociais e pela imprensa e estão fazendo muito mal para o mundo, mais do que podemos imaginar. Mesmo que as ameaças globais propagadas não se concretizem porque são extremadas e muitos atuem nos bastidores para colocar alguma lucidez e razoabilidade nas coisas, atentos inclusive aos aspectos legais, e fazer um contraponto para que essas ideias não passem de notícias e bravatas. O problema é que a retórica persiste e alcança, sem diálogo e equilíbrio, gente como este motorista aqui em São Paulo, que se empodera e não tem ninguém para dizer “menos, meu amigo, menos”, pois isso, dessa forma exacerbada, chama-se fascismo. O mesmo argumento vale se fosse com sinal trocado, se o discurso fosse o radical de esquerda.
Foi interminável essa corrida e me fez muito mal. Pela primeira vez dei nota um para um motorista de aplicativo, e ainda justifiquei e bloqueei a criatura. Esse rapaz é um perigo, um disseminador de ódio, de desinformação, um agente fascistoide.
Viajei na história do motorista, que denomino aqui, de forma ficcional, de “Nicolau”, o idiota. Imaginei me separando dos meus amigos, dos meus filhos que nasceram em São Paulo e do meu cardiologista. Eu de volta a Salvador e ele a Porto Alegre, dez anos de acompanhamento. Eu um amante de casas noturnas de jazz, voltando a ouvir axé e chorando de saudade. O Censo de 2010 diz que havia quase dois milhões de baianos em São Paulo. Como a Bahia poderia nos receber de volta?
E como ficaria São Paulo? E com relação a outros povos? Os japoneses voltariam para o Japão, os chineses para a China, não teríamos mais comida japonesa, acupuntura, pastel de feira e outras maravilhas que eles fazem. Os árabes e seus quibes e esfirras, os italianos e suas cantinas, os portugueses e suas padarias e assim por diante.
O Nicolau teria que comer comida dos indígenas: frutas, verduras, legumes, peixes, carnes, milho, mandioca. A população da cidade diminuiria tanto que provavelmente ele não teria clientes para transportar no seu veículo. Pois, quando o Brasil foi “descoberto”, quem vivia aqui eram os indígenas. Os outros todos chegaram depois.
Ele me disse que os pais eram descendentes de portugueses. A depender da história, provavelmente seriam acorrentados e deportados em um navio e devolvidos à Lisboa. Assim como milhares de navios seriam destinados à África, devolvendo seu povo escravizado, tremendamente explorado.
Despertei de um sonho ruim, com um gosto amargo na boca, chateado com o que tenho observado no mundo, sobretudo como profissional de comunicação. É evidente, no mundo atual, um recuo civilizatório entre nós com a escalada da violência, a normalização da brutalidade, a desumanização nas relações, na prevalência dos interesses do capital sobre as necessidades humanas.
A vida sobre o planeta se fragiliza, porque o planeta está deteriorado, a natureza corroída, incapaz de se recondicionar, e as relações humanas estão empobrecidas. Provavelmente o ponto de não retorno já foi ultrapassado e os grandes atores seguem o mesmo jogo de sempre, movido pela ganância e pela busca ou manutenção de poder. Em algum ponto, todos nós pagaremos esta conta. Sem exceção.
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